Tableau de bord vs. Balanced Scorecard

Tableau de bord e Balanced Scorecard: duas lógicas de controlo

O tableau de bord e o Balanced Scorecard respondem a perguntas diferentes. Compreender as duas lógicas ajuda a desenhar painéis de indicadores úteis para decidir.

Uma confusão com custos

Em muitas organizações, «tableau de bord», «painel de indicadores», «dashboard» e «Balanced Scorecard» são usados como sinónimos. A confusão não é apenas terminológica: conduz a painéis repletos de indicadores que ninguém liga à estratégia ou, no extremo oposto, a mapas estratégicos elegantes que ninguém consegue pilotar no dia a dia.

Os dois instrumentos nasceram em tradições diferentes e respondem a perguntas diferentes (Bourguignon et al., 2004; Epstein & Manzoni, 1998). Conhecer essa diferença é o primeiro passo para escolher, ou combinar, com critério.

O tableau de bord: pilotar o que depende de nós

O tableau de bord desenvolveu-se em França, no meio industrial da primeira metade do século XX, quando engenheiros procuraram instrumentos para acompanhar o desempenho dos processos produtivos (Bourguignon et al., 2004). A metáfora é a do painel de instrumentos de um veículo: um conjunto restrito de mostradores que permite a quem conduz perceber, num relance, se mantém o rumo.

Três características definem a sua lógica:

  • cada responsável dispõe do seu próprio tableau de bord, centrado nas variáveis que efetivamente controla;
  • os indicadores combinam informação financeira e física (quantidades, prazos, qualidade, consumos), privilegiando a rapidez sobre a precisão contabilística;
  • os tableaux de bord articulam-se em cascata: os indicadores de cada nível alimentam, de forma sintética, o nível imediatamente acima.

A pergunta central do tableau de bord é, por isso, operacional: estamos a controlar o que depende de nós?

O Balanced Scorecard: executar a estratégia escolhida

O Balanced Scorecard, proposto por Kaplan e Norton (1992), parte de um diagnóstico diferente: os indicadores financeiros descrevem o passado, mas pouco dizem sobre a capacidade de criar valor no futuro. A resposta foi equilibrar quatro perspetivas, cada uma associada a uma pergunta.

PerspetivaPergunta orientadoraExemplos de indicadores
FinanceiraComo nos veem os acionistas?Margem, rendibilidade, crescimento das receitas
ClientesComo nos veem os clientes?Satisfação, retenção, quota de mercado
Processos internosEm que temos de ser excelentes?Prazos, qualidade, produtividade
Aprendizagem e crescimentoConseguimos continuar a melhorar e a criar valor?Competências, inovação, sistemas de informação

O elemento decisivo não é o número de perspetivas, mas a lógica de causa-efeito que as liga: competências e sistemas sustentam processos excelentes, que geram valor para os clientes, que por sua vez se traduz em resultados financeiros. Os mapas estratégicos tornaram essa cadeia visível numa única página (Kaplan & Norton, 2004).

Na administração pública e nas organizações sem fins lucrativos, a lógica mantém-se, mas a hierarquia muda: a missão ocupa o topo do mapa e a perspetiva financeira passa a ser um meio, e não o fim (Kaplan, 2001).

A pergunta central do Balanced Scorecard é, por isso, estratégica: estamos a executar a estratégia que escolhemos?

As duas lógicas lado a lado

Duas lógicas de controlo. Tableau de bord: estamos a controlar o que depende de nós? Balanced Scorecard: estamos a executar a estratégia que escolhemos?
Figura 1. As duas lógicas de controlo.

O tableau de bord parte de quem decide; o Balanced Scorecard parte do que se decidiu. A tabela sintetiza as diferenças essenciais.

DimensãoTableau de bordBalanced Scorecard
OrigemFrança, meio industrial, primeira metade do século XXEstados Unidos, Kaplan e Norton, 1992
Ponto de partidaAs variáveis que cada responsável controlaA estratégia da organização
IndicadoresFinanceiros e físicos, escolhidos por cada nívelEquilibrados em quatro perspetivas
ArticulaçãoCascata ao longo da hierarquiaCadeia de causa-efeito entre perspetivas
Pergunta centralEstamos a controlar o que depende de nós?Estamos a executar a estratégia que escolhemos?
Risco típicoMuitos indicadores sem ligação à estratégiaUm mapa elegante que não chega à operação

Na prática, os dois instrumentos combinam-se bem. O Balanced Scorecard articula a estratégia ao nível da direção; os tableaux de bord traduzem-na em pilotagem operacional em cada área de responsabilidade (Epstein & Manzoni, 1998).

Cinco perguntas para testar um painel

Cinco perguntas antes de desenhar um painel: que decisão apoia o indicador, quem responde por ele, se mede o resultado ou o antecipa, com que frequência é atualizado e que objetivo estratégico serve.
Figura 2. Cinco perguntas antes de desenhar um painel.

Antes de escolher o modelo, há uma pergunta anterior: que decisões serve cada indicador? Muitos painéis falham não por adotarem o modelo errado, mas por acumularem indicadores sem função clara. Proponho cinco perguntas para testar qualquer painel:

  1. Que decisão apoia este indicador? Se ninguém decide nada com base nele, é informação, não pilotagem.
  2. Quem responde por ele? Um indicador sem responsável dilui-se em relatórios que ninguém lê.
  3. Mede o resultado ou antecipa-o? Os indicadores de resultado dizem onde chegámos; os indicadores de antecipação permitem corrigir a tempo.
  4. Com que frequência é atualizado? A periodicidade tem de acompanhar o ritmo da decisão.
  5. Que objetivo estratégico serve? Se a resposta for «nenhum», o indicador pode ser útil à operação, mas não pertence ao painel estratégico.

Menos indicadores, mais bem escolhidos, produzem melhores decisões do que painéis exaustivos que ninguém consegue acompanhar.

Referências

  • Bourguignon, A., Malleret, V., & Nørreklit, H. (2004). The American balanced scorecard versus the French tableau de bord: The ideological dimension. Management Accounting Research, 15(2), 107-134.
  • Epstein, M., & Manzoni, J.-F. (1998). Implementing corporate strategy: From tableaux de bord to balanced scorecards. European Management Journal, 16(2), 190-203.
  • Kaplan, R. S. (2001). Strategic performance measurement and management in nonprofit organizations. Nonprofit Management and Leadership, 11(3), 353-370.
  • Kaplan, R. S., & Norton, D. P. (1992). The balanced scorecard: Measures that drive performance. Harvard Business Review, 70(1), 71-79.
  • Kaplan, R. S., & Norton, D. P. (2004). Strategy maps: Converting intangible assets into tangible outcomes. Harvard Business School Press.